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Mundo

Janelas para Dentro da Alma

Pedro Ferraz

Momentos mágicos que ocorrem durante as sessões de surf parecem ser janelas que nos fazem olhar para dentro de nossas almas

Lembramos de muito poucos dias durante todo o curso de nossas vidas. O nascimento de uma criança. A celebração de sua formatura. Um dia do casamento. O funeral de um parente próximo. Todas as outras ocasiões se misturam com a banalidade e trivialidade que parecem cercar a maioria das atividades humanas. Afora esses dias, a vida é apenas um borrão, que flui incessantemente através do éter, um mero pontinho de existência em um universo sem graça. Para um surfista, nestes últimos dias a serem lembrados geralmente ocorrem no oceano.

A grande tragédia de ser um surfista é que você começa a ver coisas que a maioria das pessoas nunca irão ver, muito menos compreender. Momentos fugazes na água. Um lip que se projeta de uma forma e se combina com a luz que chama a sua atenção. Uma remada por uma série enorme, pouco antes que ela exploda na bancada, a chuva de gotas de um lip ao seu redor, causando a formação de um arco-íris contra a luz do sol. O sorriso de um amigo quando ele sai da melhor onda do dia. Estes momentos são apenas um vislumbre de uma vida, uma janela para a alma. Como explicá-las aos outros? Como transmitir os momentos de beleza, tão raro no mundo de hoje, que nos envolvem, sem aviso?

Talvez nós estamos destinados a vivenciar esses momentos sozinhos, perdidos em um mar infinito de memórias. Talvez isso é o que nos faz surfistas: a solidão total dos belos momentos que a experiência e a nossa incapacidade para descrevê-los aos nossos companheiros seres humanos. Talvez seja o melhor também. Se fomos capazes de transmiti-los, seria provavelmente um número ainda maior de pessoas na água, procurando observar através das janelas da alma.

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