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Yoga ou surf? Na dúvida, aposte na dupla

Sylvia Abaurre

Se quiser aprimorar sua prática de surf enquanto está fora da água, acredite, a yoga pode fazer uma grande diferença, entenda o porquê!

Quem não se lembra da concorrida aula do mestre de yoga, Gerry Lopez em um domingão do Oi Rio Pro em 2018? Gerry, nascido em 7 de Novembro de 1948, também conhecido como Mr. Pipeline, que além de surfista e shaper é mestre yoga, comandou uma aula aberta com as técnicas de Yin Yoga, modalidade que atua sobre o equilíbrio emocional, espiritual com sessões de alongamento e respirações voltados para o surf.

"Chasing the Lotus". Gerry Lopez à esquerda. Circa, 1969. Foto de David Darling. Fonte: www.surfandabide.com

Vamos dar uma olhada na história de vida do Gerry Lopez: um dos primeiros de sua geração do surf a incorporar a prática de Yoga. Ele continua surfando ondas incríveis com graça e estilo, assim como fazia quando era jovem. Obviamente não é a idade que nos retarda, mas como mantemos nossos corpos em movimento ao longo dos anos. Ele não é apenas um surfista, mas também um iogue inspirador. Pode ser esta a chave para sua atemporalidade e forma física

Como surfistas, bodyboarders, bodysurfers, ou atletas do mar, somos corpos ágeis em movimento que querem permanecer em movimento no mar. Queremos ondas que se espalhem por quilômetros e um corpo que nos permita surfá-las para sempre! Queremos chegar rápido ao outside sem muito esforço. Queremos lidar bem com os momentos difíceis onde estaremos num turbilhão debaixo de uma onda poderosa. Queremos não nos lesionar. 

Assim, como para enfrentar uma viagem de moto num percurso longo, só chegaremos ao nosso destino se observarmos a temperatura do motor, lubrificar a corrente e verificar a pressão dos pneus durante o percurso. É tudo uma questão de manutenção. Bem, isso é o que a Yoga ajuda ao Gerry Lopez a fazer com o corpo dele. 

São muitos os exemplos: Carlos Burle, Kelly Slater, Carissa Moore, e mais recentemente, Griffin Colapinto que, em sua recente vitória na etapa de Portugal foi carregado junto de sua prancha fazendo um gesto do yoga com suas mãos – O clássico Jñana Mudra, que simboliza o conhecimento.

Griffin Colapinto fazendo o gesto Jñana Mudra. Foto: WSL/Thiago Diz

Claro que a grande maioria das atividades físicas tem potencial para melhorar seu surf, mas por que o Yoga parece ser a atividade complementar sob medida para o surfista?

 

Na filosofia tradicional chinesa, que por milênios vem dialogando com as tradições da Índia onde o Yoga se originou, existe um conceito de yin e yang – uma compreensão de como o mundo funciona. Tudo tem dois lados: claro e escuro, masculino e feminino, duro e macio. Acredita-se que entre os extremos do yin e do yang, encontramos o contentamento, um estado de bem-aventurança. Os budistas chamam isso de moderação ou “o caminho do meio”. Pode-se chamar também de equilíbrio!

"Yin e Yang são conceitos do taoísmo que expõem a dualidade de tudo que existe no universo. Descrevem as duas forças fundamentais opostas e complementares que se encontram em todas as coisas: o yin é o princípio da noite, Lua, a passividade, absorção. O yang é o princípio do Sol, dia, a luz e atividade.

Segundo essa ideia, cada ser, objeto ou pensamento possui um complemento do qual depende para a sua existência. Esse complemento existe dentro de si. Assim, se deduz que nada existe no estado puro: nem na atividade absoluta, nem na passividade absoluta, mas sim em transformação contínua.”(Fonte: Wikipédia)

Símbolo do Yin e Yang. Foto de Jben Beach Art no Pexels

Os corpos dos surfistas são fáceis de olhar, mas difíceis de “dobrar"

Entre os surfistas que realmente chegam a uma aula de Yoga, a maioria não consegue tocar os dedos dos pés. Claro que isso não é verdade para todos, mas acontece com bastante frequência. No entanto, não é necessário ser flexível para fazer yoga: a própria prática das posturas (asanas) vai trazendo essa flexibilidade, soltando articulações e ensinando o praticante a ganhar espaço dentro do próprio corpo.

 

Além disso, as respirações (pranaiamas) que se se aprendem e praticam no Yoga são importantíssimas para segurar seu fôlego, seu equilíbrio, seu foco e sua calma em momentos de maior dificuldade no mar. Também ajudam a ganhar esse alongamento que estava faltando: ao relaxar na expiração, sempre é possível expandir alguns milímetros a mais.

 

Os exercícios de yoga não mantêm apenas a concentração. A prática diária pode ajudar a encontrar a calma fundamental em situações de estresse na água, como uma onda forte que te mantém submerso durante algum tempo. Se a mente permanecer calma, o corpo será capaz de agir melhor. Desta forma poderemos remar com mais força ou evitar consumir todo o oxigênio enquanto ainda estamos debaixo d'água.

 

Com exceção de ondas grandes e pesadas quebrando sobre recifes rasos, o surf não é um esporte propenso a lesões. Acredita-se que  a maioria das lesões no surf são causadas por essa falta de equilíbrio, ou seja, muito yang e pouco yin. Vamos encarar: como surfistas, bodyboarders e bodysurfers vivemos para o yang. Queremos onda após onda, cavadas, incontáveis cut-backs e tubos completos.

 

O surf é uma forma de exercício “yang”, cheia de movimento, contração muscular, ritmo e repetição. Através desse movimento, nossos músculos se expandem e se contraem, ficando mais fortes. Mas ao limitar nossos corpos unicamente ao yang, tendemos a perder a suavidade natural, tornando-nos mais inflexíveis e ficando cada vez mais rígidos. Perdemos a fluidez! 

Para manter a inércia, o impulso, a longevidade de nossos corpos, devemos misturar o yang com o yin. Portanto, se o surf é o seu “yang”, deixe o yoga ser o seu “yin”.

 

Cuide-se com a Yin Yoga

Esta é a proposta da Yin Yoga. Yin yoga é uma prática firme mas relaxante, uma técnica usada também para curar. Após horas de remadas, arqueamento da parte inferior das costas e aéreos repetitivos em uma longa sessão no mar, seu corpo fica sobrecarregado e cansado.

É uma forma lenta e suave de yoga. Não há poses de pernas atrás da cabeça ou flexões excessivas das costas. Funciona relaxando os músculos. O objetivo é manter poses básicas de ioga para iniciantes por um longo período de tempo, geralmente de 3 a 5 minutos. Ao respirar fundo e devagar, você encontra uma quietude. Nessa quietude, você está permitindo que seu corpo relaxe. Através do relaxamento, você se cura.

 

Embora seja lento e suave, nem sempre é fácil. É interessante encontrar uma turma com aulas iniciais ou pelo menos assistir a bons vídeos online. A parte mais difícil do yin yoga é encontrar tempo para fazer praticamente nada, ficar quieto e silencioso, relaxar e rejuvenescer.

 

A combinação de surf com yin yoga dá o equilíbrio que o corpo precisa. Através deste equilíbrio, podemos viver com saúde, o que leva a uma maior felicidade. Se você entrar no mundo do yin, garanto que vai surfar não apenas por mais tempo, mas melhor. Você não apenas curará lesões do passado, mas também evitará lesões no futuro. O "tao" para uma vida longa no surf é ficar zen com yin.

E há a prática que reforça o Yang também! 

Vale lembrar ainda que o Yin Yoga, praticado por Gerry Lopez, é apenas uma das várias práticas de Yoga que existem na contemporaneidade. O yoga percorre uma trajetória milenar na Índia até sua chegada ao ocidente no fim do século XIX e início do século XX. Após sua chegada em terras ocidentais é que se desenvolvem muitas das linhagens contemporâneas de Hatha Yoga, sendo que nem todas privilegiam aspectos mais Yin ou de relaxamento.

Um exemplo clássico é a famosa prática de Ashtanga Yoga, que tem como base as saudações ao sol para um potente trabalho muscular e uma forma de respiração específica (Ujay ) para o aquecimento do corpo. Nesta prática, a repetição constante de posturas como a cobra (bhujangasana),  o cachorro olhando para baixo (adho mukha svanasana) e o guerreiro  (Virabhadrasana) acaba potencializando os próprios movimentos do surf, já que tais posturas são análogas aos próprios gestos feitos em cima da prancha. É uma prática de aspecto mais Yang, mas que também é complementada por vários elementos Ying, sobretudo no final, quando predominam posturas de concentração interior.


Uma coisa é fato: independente da modalidade, os iogues estão sempre tentando convencer os surfistas a se alongarem. Com uma lista de benefícios imensa, todos os estilos de ioga farão você se sentir melhor. Encontre o seu.

Mas vamos mais longe… é só a atividade física e o relaxamento? 

Certamente que não! Não é só o exercício físico mas principalmente a coincidência dos valores e do estilo de vida o que une estas duas atividades complementares. No plano mental, o Yoga trabalha ainda elementos de concentração que são fundamentais para o surf, como a atenção plena no momento presente - uma habilidade essencial para quem não quer perder as melhores ondas!

Precisa trabalhar a respiração, a força? Qual o melhor tipo de Yoga para o surf? A específica Yin Yang? A Hatha Yoga? A Ashtanga? A resposta é simples: é aquela que você pratica melhor no seu dia a dia. É aquela que completa sua forma física. Aquela que não te faz desistir. É aquela na qual, você, além de obter mais força, flexibilidade e equilíbrio, obtém também paz interior. Para um surfista, estar em sintonia e sincronia com sua essência e com o ambiente que o rodeia é fundamental!

Resumindo: o objetivo central da Yoga é a união do corpo com a mente, através da concentração no momento presente. De que forma o Yoga busca essa união das partes do ser? Através da prática de asanas (posturas), dos pranaiamas (exercícios respiratórios), da concentração e meditação, e, finalmente, do savasana (o tão esperado relaxamento!).

O surfe é um esporte que exige do corpo inteiro e muitas vezes deixa você com algumas dores. Portanto, medidas preventivas por meio da yoga podem ser incrivelmente benéficas, mas primeiro você precisa saber o que deve ser feito. Procure orientação responsável. Procure professores especializados. 

 

Introduzir apenas quinze minutos de ioga em seu dia pode ter um grande impacto tanto mental quanto físico. Tente desenvolver uma curta rotina de ioga e praticar no mesmo horário todos os dias. Uma vez que esteja incorporada aos seus hábitos, você achará fácil prosseguir com a prática. 

Isso significa que, quando as ondas aparecerem, você estará pronto. 

Boas ondas! 

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Sylvia Abaurre foi nascida no ano da graça de 1960 e criada na beira do mar. Maratimba de uma vila de pescadores chamada Manguinhos, saia de casa e pisava na areia da praia. Acostumou-se a ouvir as cantigas das esposas dos pescadores que passavam as noites limpando peixes sob os quitungos na praia, sob a luz de lampiões. Sua relação com o mar é profunda e tem o tempo de uma vida. Durante a infância, rolou na areia, pescou, pegou muito "jacaré". Aprendeu um pouco a ler o tempo e o mar. Cresceu e resolveu entender melhor um pouco como funcionava este ambiente que tanto a acolhia e atraia. Foi cursar Biologia na UFES e adquiriu ainda a consciência ambiental que era intuitiva na infância. A vida profissional deu uma guinada e foi para o campo da tecnologia. Nunca largou da praia e do mar. Foi uma das primeiras bodyboarders aqui do ES e continua a pegar onda sempre. Também tem um caiaque onde gosta de remar e explorar os arrecifes por aqui. Na pandemia da Covid-19 tomou gosto pela natação em águas abertas e é o que faz todo dia entre as 6 e 7 da manhã, depois que se aposentou: nada entre 1,5 e 3,5 km e diz bom dia às tartarugas e golfinhos locais. 

Instagram: @sylvia_abaurre

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